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8 de abril de 2020
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Brasil não sabe lidar com talentos na era da IA, aponta relatório em Davos

Enquanto estadistas e líderes de negócios discutem o futuro de economias globais no contexto do avanço da inteligência artificial (IA) em Davos nesta semana, um ranking mundial posiciona o Brasil como um dos mais atrasados países do mundo na atração e preparo de profissionais.

O recado do estudo, elaborado pela escola de negócios Insead e apresentado durante o Fórum Econômico Mundial em Davos hoje (22), é claro: na era da IA, atrair mais talento de fora é crucial, bem como um esforço multilateral para endereçar temas como capacitação técnica e evitar que a lacuna entre países ricos e nações em desenvolvimento aumente.

Publicado no relatório “Global Talent in the Age of Artificial Intelligence” (“Talento Global na Era da Inteligência Artificial”), o Índice Global de Competitividade em Talentos (GTCI, em inglês) posiciona o Brasil em 80º lugar na lista de 125 economias, caindo oito posições em relação ao ano passado. O país está atrás de todos os BRICS e na América Latina, só supera o ParaguaiEquador Venezuela.

O relatório analisa a capacidade de criar, atrair, desenvolver e reter talentos: entre os países latinos, o Brasil ocupa as últimas posições do GTCI em quase todas as verticais e nem aparece na lista quando o quesito é atração de profissionais qualificados. A tendência de países em subir, descer ou ficarem estagnados em relação à sua base de talentos também é analisada e, segundo um dos autores do relatório e professor da Insead, Felipe Monteiro, o Brasil atualmente tende a cair.

Em entrevista à FORBES, o acadêmico comentou o estudo, que considera dados de anos anteriores e não captura medidas tomadas pelo governo Bolsonaro nos últimos meses, como a movimentação em torno da criação do plano nacional de IA e algum engajamento em fóruns internacionais sobre o tema: “Não podemos atribuir nada de bom ou de ruim no relatório deste ano à administração atual”, aponta.

Dezenas de variáveis como empregabilidadeabertura da economia e segurança pessoal foram usadas para construir o ranking, de fontes como o Banco MundialUnesco e o Fórum Econômico Mundial. O estudo leva em conta a percepção do alto escalão de negócios global sobre a habilidade “medíocre” do Brasil de lidar com a questão do talento na era da IA. “Os executivos percebem o Brasil como muito mal posicionado nas diversas variáveis que utilizamos”, aponta o professor.

Quando o assunto é talento que possa ser treinado ou re-treinado para responder à criação e eliminação de trabalhos por conta da IA, o relatório aponta que o Brasil vai mal em duas frentes cruciais: a atração de pessoas qualificadas, principalmente estrangeiros, bem como a vocação para capacidades técnicas.

“Está muito claro que o Brasil tem uma enorme dificuldade em atrair profissionais de fora, por ser muito fechado, e ter uma mentalidade muito insular”, ressalta Monteiro. O pilar do preparo técnico para IA mostra o país na lanterninha global, em variáveis como relevância do sistema educacional para a economia, acesso a oportunidades de crescimento profissional e habilidades básicas em matemática.

LONGE DOS CAMPEÕES

Pela primeira vez, o estudo apresenta um gráfico com quatro quadrantes que ilustram onde países estão na corrida global pelo preparo de suas populações para lidar com o avanço da IA: os campeões (champions), os que estão se movimentando ativamente (movers), os que estão “mancando”, mas fazendo algum esforço (limpers) e os atrasados (laggards).

No quadrante dos campeões, estão países como Estados UnidosMalásiaCanadá Singapura. A China, que atualmente investe pesado na geração de talentos, bem como pesquisa e desenvolvimento (P&D) em IA, está bem na fronteira entre os movers e os campeões. Enquanto isso, o Brasil está no quadrante dos laggards, acompanhado de países como a ZâmbiaHungria Polônia.

Segundo Monteiro, a Insead quer que o relatório seja uma ferramenta de ação. “Queremos que tomadores de decisão no governo e no setor privado vejam os indicadores e considerem onde é possível melhorar”, aponta. “Existem formas óbvias de fazer isso, como atrair talento [internacional] para o país.”

Outras frentes em que o Brasil pode melhorar são relacionadas à aspectos como a desburocratização na abertura de startups, qualidade do ambiente regulatórioefetividade do governoredução da corrupção e qualidade de vida. Estas melhoras, segundo o acadêmico, podem trazer um aumento em interesse de profissionais qualificados: “A melhora no ambiente de negócios certamente terá um impacto importante [na atração, retenção e desenvolvimento da base de talentos do Brasil]”, constata.

Algo a ser considerado em países emergentes como o Brasil, dada a sua posição atualmente desvantajosa, é a possibilidade de “pular etapas” no preparo da força de trabalho para o avanço tecnológico futuro, diz Monteiro: “Existe a chance de pensar em preparar o talento para a próxima geração em tecnologia, ao invés de olhar para trás”.

O Brasil tem mostrado sinais de que quer acelerar o passo na corrida global da IA, com a abertura de centros de P&D e o lançamento de uma chamada pública para a elaboração do plano nacional de IA. Em um ano, Monteiro espera que estas movimentações tenham resultado em uma melhora na atual posição do país no ranking de talentos: “No próximo ano, espero um ambiente de negócios melhor no Brasil, uma cultura mais ‘business friendly’, menos burocrática, mais eficiente”, aponta. “Principalmente, espero ver um país mais aberto ao talento internacional, mais conectado e mais inserido na economia global.”

Em um futuro próximo, governos e grandes corporações usarão poder computacional e ferramentas como IA redes neurais para prever o comportamento de cidadãos e completamente manipular suas decisões. Em uma palestra no Fórum Econômico Mundial em Davos ontem (21), o historiador Yuval Noah Harari pintou um cenário onde a real guerra que será travada entre países, e não terá mais a ver com território ou commodities, mas sim com nossos cérebros.

O movimento, segundo o autor do best-seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, tem nome: brain hacking. “Imagine, se daqui 20 anos, alguém em Washington, ou Beijing, ou São Francisco, pudesse saber todo o histórico pessoal, médico e sexual de todo jornalista, juiz e político no Brasil”, disse Harari.

De acordo com a teoria dele, países líderes no uso de dados logo poderão exercer controle sobre outras nações. “Quando a situação chegar neste ponto, cabe a questão: é um país independente ou uma colônia de dados?”

A atual batalha tecnológica entre nações está sendo travada entre os Estados Unidos e a China, aponta o historiador, acrescentando que brain-hacking é algo que nasceu no Vale do Silício e não em Washington, mas que as Big Tech estão cada vez mais próximas dos políticos, pois precisam da anuência do governo para levar seus planos a cabo.

Uma outra visão da corrida por ciber-superioridade foi levantada pela GlobalData, que lançou um comunicado na semana passada alertando que “a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) não deve se preparar para o conflito de ontem, mas sim para o conflito de amanhã”, no contexto do avanço dos chineses em IA.

“[A China] nunca vai chegar no nível dos Estados Unidos em exército e defesa tradicional, mas pode dar um salto com tecnologia, fazendo com que todo o equipamento [bélico, dos Estados Unidos] se torne obsoleto”, aponta a empresa de pesquisa.

Fonte: Forbes

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