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8 de abril de 2020
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Tarde demais para a indústria

O economista José Oreiro, do Departamento de Economia da UnB (Universidade de Brasília), expoente da corrente desenvolvimentista e heterodoxa no Brasil, diz que não se surpreende com a falta de reação da indústria diante do câmbio desvalorizado e do juro baixo, que sempre foram defendidos como pré-condições do desenvolvimento industrial por sua escola de pensamento.

Ele nota, inclusive, que a produção da indústria da transformação (nas Contas Nacionais) está aproximadamente no nível de 2004 e 2005.

“O que acontece é que 20, 25 anos de juro alto e câmbio valorizado provocaram efeitos de histerese na produção industrial”, diz Oreiro.

Segundo o economista, foi um período muito longo durante o qual a indústria de transformação não investiu em modernização, perdeu mercados no exterior e permitiu que se abrisse um grande hiato tecnológico entre o Brasil e os países mais competitivos.

Ele compara a indústria brasileira a um paciente crônico com pressão alta e diabetes. “Se um problema crônico, ainda que não seja fatal, fica sem tratamento por um período muito longo,  pode trazer consequências irreversíveis”, diz o pesquisador.

O pesquisador aponta que, efetivamente, houve recentemente uma mudança do mix de política macroeconômica, com política fiscal contracionista e monetária expansionista. E esse “mix” é uma causa importante da atual combinação de juro baixo e câmbio depreciado.

No entanto, para Oreiro, “pode ser que o remédio tenha chegado tarde demais, o dano me parece irreversível”.

Assim, ele considera que o desafio à frente é quase o de “reindustrializar a partir do zero – temos uma indústria que morreu e precisa ressuscitar”.

O economista acrescenta ao seu diagnóstico os efeitos conjunturais, como a crise da Argentina – “o único mercado relevante que nos restava” – e o próprio fato de que a economia brasileira não conseguiu ainda se recuperar da recessão de 2014-2016.

Como tentativa de “ressuscitar a indústria”, Oreiro recomenda que o governo aumente o investimento público em infraestrutura. Para ele, mais investimento público, ao ativar a construção civil, também estimula setores industriais de bens intermediários como cimento e aço, e alguns equipamentos de capital.

“Além disso, nossa infraestrutura está em petição de miséria”, acrescenta.

Adicionalmente, em função das inclinações de Bolsonaro, o economista da UnB pensa que o governo deveria tentar reabilitar a indústria de defesa nacional, por meio do aumento do orçamento de investimentos do Ministério da Defesa.

“A indústria militar tem alto teor tecnológico e, em relação a ela, regras da OMC sobre apoio à indústria nacional não se aplicam”, explica.

A recomendação de aumento do investimento público liga-se à visão de Oreiro sobre a política macroeconômica atual.

Ele se diz um defensor do mix de fiscal apertado e monetário frouxo, mas, na conjuntura presente, considera que o fiscal está restrito demais.

“Num contexto em que o Brasil ainda não se recuperou da crise de 2014 a 2016, o atual nível de contracionismo fiscal reduz a eficácia da política monetária”, analisa.

Deixando claro que não se trata de um problema já existente, Oreiro se preocupa inclusive em que a continuidade das quedas da Selic, se o PIB não reagir, leve a taxa básica para perto do limite problemático de zero – quando se torna extremamente difícil estimular a economia com política monetária, como mostra a experiência dos países avançados desde a crise global de 2008-2009.

Dessa forma, para Oreiro, a melhor opção para o momento seria tirar o investimento público do teto dos gastos, o que mataria dois coelhos com uma só cajadada: relaxava um pouco o fiscal e poderia ajudar a indústria.

“Não faz sentido colocar restrição financeira para projetos de investimento com taxa de retorno, econômica ou social, muito maior que a taxa de captação, que está nos mínimos históricos; liberar o investimento do teto seria aumentar o bom gasto do governo, em infraestrutura, e não um licença para gastar em consumo e custeio”, ele diz.

Em termos da agenda de reformas, Oreiro gostou da previdenciária (discordando de um detalhe ou outro) e defende a reforma tributária de Rodrigo Maia, excluindo propostas de Paulo Guedes como o imposto sobre transações financeiras e a desoneração da folha.

O economista é extremamente crítico em relação às PEC dos fundos e a de emergência fiscal. Em relação à primeira, ele acha que mistura joio com trigo, ao propor o fim de todos os fundos, inclusive alguns que Oreiro reputa como importantes, como o de desenvolvimento da ciência e tecnologia.

Quanto à PEC de emergência fiscal, ele diz se tratar de “terraplanismo econômico” em comparação ao que se debate hoje nos Estados Unidos e Europa. A razão é que, na sua visão, essa PEC tem caráter pró-cíclico, diminuindo o gasto público quando a economia está em recessão.

“O que nós temos que fazer é desenhar um arcabouço de política fiscal que seja contracíclico, levando a mais gastos em recessão e a menos em expansões”, conclui o economista.

Fonte: Estadão

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