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14 de outubro de 2019
Entrevistas Tecnologia

Tecnologia da informação: Entre a opinião e o argumento

Leandro Karnal em Problemas Brasileiros

Para o historiador, Leandro Karnal, a visibilidade que a tecnologia da informação deu às pessoas comuns é algo positivo, porém, muitas têm dificuldades em conceber que, além da opinião, existe o argumento – que a embasa e legitima –, ultrapassando a barreira do gosto. As redes sociais deram voz a quem antes não era convidado a participar do cenário midiático nacional – em que a informação era monopólio de grandes conglomerados de comunicação.

Em entrevista ao canal UM BRASIL publicada por Problemas Brasileiros, o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Leandro Karnal fala sobre liberdade de expressão, pós-verdade, privacidade na internet e outras questões que permeiam o debate sobre os limites da opinião e da crítica. “Hoje, vivemos o ‘ser é publicar, fotografar’. Se não registrei, não existiu”, analisa.

Segundo Karnal, o conceito de politicamente correto, que pode soar pejorativo, “é uma convicção de que palavras ferem, de que jovens adolescentes se matam porque escutam que são feios, gordos, burros ou gays”. Para o historiador, o fato de as pessoas expressarem mais facilmente as suas opiniões não é necessariamente ruim. Contudo, ele avalia que faltam reflexão sobre o que é dito e respeito às diferenças. “Acho que, ao longo da vida, choraremos mais vezes pelo que ouvimos do que por um soco na cara.”

Ainda sobre a nova maneira de as pessoas se comunicarem, repleta de símbolos e abreviações, Karnal acredita que a velocidade imposta pelos smartphones e tablets são reflexos do mundo contemporâneo, e isso não é necessariamente um problema. As grandes questões, segundo ele, são as faltas de capacidade analítica e de aprofundamento dos temas discutidos por todos e quando a opinião é mais importante do que o argumento.

Você é tachado de esquerdista por combater a desigualdade e o racismo, mas também recebe o rótulo de direita, quando defende a cultura clássica e a arte. Por que as pessoas têm essa necessidade de rotular?

Quando a expressão “esquerda e direita” surgiu, durante a Revolução Francesa, era só uma referência dentro de uma assembleia, para saber quem era a favor ou contra os poderes maiores do representante do Executivo. Sou uma pessoa que tem ideias, e elas não são dogmáticas e respeitam alguns princípios. Independentemente da postura política, abomino o racismo, a violação do Estado democrático de direito, a violência e a morte, não importando se feitos em nome de um Estado ditatorial, como teve no Brasil, ou em nome da defesa contra esse mesmo Estado. Quando entramos no campo de escolher quem merece viver e quem deve morrer, entramos no discurso totalitário, e o totalitarismo é de esquerda e de direita. Ou seja, os valores do Estado, do meu grupo e do fanatismo acima do valor da vida humana.

Cada vez mais a opinião está tomando o lugar do fato?

A prevalência da opinião sempre existiu. O que acontece hoje é que todos que têm uma opinião acabam encontrando uma maneira de torná-la pública. Se a opinião, há cem anos, era fruto de um grande referencial de opiniões – um intelectual ou um político –, hoje ela é universal. Isso em si é bom, mas as pessoas têm dificuldades em conceber que, além da opinião, existe o argumento.

Por exemplo, quando digo que não gosto de carne vermelha, em detrimento das carnes brancas, porque o custo hídrico da carne vermelha é muito grande, as pessoas poderão discutir comigo quantos litros de água consomem um bife, um filé de peixe, ou até vão dizer que o ideal seria nenhum deles. Pois estamos falando de algo demonstrável, verificável, possível de ser medido, no qual posso ser desmentido, porque meu gosto é subjetivo.

Se formos debater opiniões, será uma discussão apaixonada. Seria como dizer: qual é o melhor time de São Paulo ou do Rio de Janeiro? Eu só tenho opiniões, a não ser que estabeleça critérios: qual é o melhor time, de acordo com o maior número de vitórias em campeonatos estaduais e nacionais?

Estabelecido o critério, ele se tornará uma opinião abalizada mediante argumentos. Então, hoje, todo mundo tem opinião, isso é bom. Todo mundo pode expressá-la, isso não é ruim. Mas ninguém escuta opinião alheia ou busca converter em argumento, isso é muito ruim.

A “cegueira” seletiva também pode ser vista em um tema muito momentoso: tudo o que denunciam sobre falta de ética de um político que detesto, é verdadeiro. Agora, se a denúncia é contra o meu político, o meu partido ou o meu grupo é perseguição. Logo, estamos no campo da paixão, da opinião, e não no campo da análise objetiva dos dados.

Atualmente, os jovens se comunicam por meio de imagens e também preferem um mundo de informações muito rápidas e se consideram satisfeitos com elas, mas não dedicam um tempo à leitura de um bom livro. É possível convencer um jovem que é legal ser culto ou ter cultura?

Ler imagens é tão inteligente como ler textos. Se sou capaz de analisar uma pintura, um desenho ou uma charge, isso envolve tanta atividade cerebral quanto ler um conto de Machado de Assis. O problema é que o texto e as imagens não estão sendo analisados.

A questão da escrita pré-alfabética é que eu posso escrever por meio da imagem, como os egípcios fizeram, traduzindo ideias e ações, mas a escrita definida como um sistema simbólico que traduz todas as ideias de uma língua ainda não está contida no fato daquilo que aparece no celular.

O aparelho não dá um código geral e universal, apenas reforça sentimentos: explosões, coraçõezinhos etc. Mas não é melhor ou pior do que eu escrever “tdb kkk”, sem usar nenhuma imagem, mas traduzindo apenas nessa forma quase semítica, sem vogais, uma expressão muito simples. Entretanto, o meio e a mensagem estão umbilicalmente ligados, ou seja, o celular não é o lugar para mandar um sermão do Padre Vieira e não é sequer o lugar de se mandar um poema épico.

O celular implica velocidade, um distanciamento rápido da capacidade analítica, é o lugar para eu dizer: “Cheguei; e o outro responder: “A porta está aberta”, pronto.

Então, o celular é, por sua natureza, um instrumento rápido para termos acesso às informações rápidas. O problema é se eu confundo esse espaço com a totalidade. Os jovens que têm acesso a essa tecnologia não são menos inteligentes do que há 50 anos, apenas a inteligência mudou, ganhou o caráter holístico, geral, o caráter imagético forte, a velocidade, e perdeu capacidade analítica, de aprofundamento. Então, isso é uma questão grave.

Agora, não há uma civilização erudita e capaz que existiu há cem anos e hoje somos a barbárie, homens do Paleolítico. Há mais gente lendo e escrevendo hoje do que há cem anos. Acontece que querem comparar um discurso de Rui Barbosa, há cem anos, com a mensagem do WhatsApp de hoje. São coisas diferentes, e mostra um certo reacionarismo cultural que tenta identificar rapidez com precariedade.

É possível que um haikai contenha muito mais densidade do que um poema parnasiano ou um soneto, não é o tamanho que faz a diferença. Mas, nesse caso, tenho de levar em conta que deveria treinar jovens para 140 toques e treiná-los para ler Padre Vieira.

Na minha infância, era comum pessoas manterem diários guardados a sete chaves. Hoje, as pessoas utilizam as redes sociais e fazem revelações para serem consumidas pelos outros. A ideia de privacidade mudou?

A privacidade foi uma invenção burguesa. Ela não existia na sociedade de corte, como analisa Norbert Elias no livro A sociedade de corte, e como reforça, no Brasil, A etiqueta no Antigo Regime: do sangue à doce vida, de Renato Janine Ribeiro.

A privacidade, como vemos na série de livros A história da vida privada, organizados por Philippe Ariès, não existe no Antigo Regime: o rei defeca em público, um príncipe nasce com testemunhas, tudo é feito diante da teatralização. Haja vista, como sinal dessa mudança, a escassez de banheiros até o século 19.

Nesse mesmo século, inventou-se a família burguesa, o amor da família nuclear – com pai, mãe e filhos –, e junto veio o processo de intimidade. Essa intimidade começa a se decompor no século 20; e Zygmunt Bauman data no seu livro 44 Cartas do mundo líquido moderno, de outubro de 1997, quando ele está assistindo à televisão na Inglaterra e uma mulher fala da impotência do marido dela – tema que seria confessado a contragosto ao padre, agora é feito em horário nobre para todo mundo.

Morreu a intimidade, mas existe outro fenômeno muito importante na sociologia da comunicação: como o espaço público não tem um “eu” atuante, ele é a omissão do “eu”, pois posso utilizar avatares, não sei exatamente para quem estou falando, isso diminui a vergonha e a culpa. Mas também sou vítima da necessidade de um marketing pessoal que faz com que todas as pessoas falem dos seus sucessos.

O Natal foi insuportável, a festa foi desagradável, as pessoas estavam chatas como nunca, mas a única foto que foi para a rede social é a que estamos nós, ao redor da mesa arrumada, sorrindo. Esse é o momento que se reinventa a noção de confissão. Aquilo que Santo Agostinho inventou no início do século 5 virou uma prática de fluxo de consciência na qual eu realmente preciso falar, porque se eu não falar, não existo. “Ser é ser percebido”, diziam os filósofos empíricos escoceses. Hoje, vivemos o “ser é publicar, fotografar”. Se não registrei, não existiu.

Hoje, existe também o conceito da pós-verdade, que não é a mentira. Como funciona isso?

A mentira é quando você dizia algo sabendo que iria ofender o estado real das coisas. Agora, a pós-verdade tem a ver com a perda, que Walter Benjamin chamava da “aura de respeitabilidade das coisas”, pela multiplicação que Joseph Goebbels dizia na propaganda nazista, que algo repetido tantas vezes se torna verdade, quando quero ocultar um fato político ou produzir um fato político, social ou cultural, mediante a manipulação de dados, repetidos tantas vezes que leve ao relativismo ou à negação total.

Hoje, o verdadeiro passou a ser aquilo que está na rede, o critério epistemológico é estar na rede, só que isso é manipulado. Quando ocorre um fato que provocaria a simpatia de um candidato, durante as eleições, imediatamente surgem na rede elementos para desconstruir essa simpatia, porque isso é pensado por especialistas que têm redes que ficam espalhando coisas e fazendo com que entrem nos seus grupos de WhatsApp e outras bolhas, pelas quais me protejo e passo a fazer eco de confirmação.

Ou seja, torno-me refém da decisão de uma pessoa de publicar. Isso é um grave problema, hoje, porque sempre existiu a mentira, mas o que estamos dissolvendo é o critério que separa a verdade da mentira.

Esse fenômeno de fabricação de mentiras, ou fake news, pode alterar a forma de se discutir e fazer política?

A mentira sempre existiu na história política do mundo. Aqui no Brasil tivemos episódios como as cartas falsas de Artur Bernardes; a notícia que deram a Deodoro da Fonseca dizendo que seria preso pelo primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, e isso acelerou a República; temos notícias falsas como no Plano Cohen em 1935, que justificou o fechamento do Congresso em 1937.

A grande diferença atualmente é que a mentira é elaborada para ser dirigida ao desejo narcísico das pessoas, para se sentirem confortadas e animadas no seu nicho, a mentira é multiplicada e pensada para que você possa reforçar sua zona de conforto.

E como esta é um lugar agradável, e seu questionamento, um desafio, então surgiu um novo público para um meio muito mais eficaz, que capilarizou e democratizou as informações, para que as pessoas sejam atingidas psiquicamente e recebam a notícia de que é fato que tal político fez isso ou aquilo.

O que me assusta não são os profissionais desonestos que trabalham na elaboração dessas informações, mas como as pessoas estão absorvendo tudo isso, pois um profissional pode ser afastado, o público é muito mais complicado.

Por que você defende a ideia do “politicamente correto”?

O politicamente correto, que parece um pouco pejorativo, é uma convicção de que palavras ferem, de que jovens adolescentes se matam porque escutam que são feios, gordos, burros ou gays. A liberdade de expressão sempre tem um limite, que é a zona do crime e da ética.

Posso dizer o que quero, mas não posso defender o racismo, porque é um crime inafiançável e imprescritível. Posso defender ideias, mas não posso fazer apologia às drogas, porque é prevista como equivocada pela lei. Acho que, ao longo da vida, choraremos mais vezes pelo que ouvimos do que por um soco na cara. Temos de ter cuidado, porque toda piada contém um ataque, que autoriza, do ponto de vista da linguagem, uma violência real.

Por isso que se dizia, na década de 1930, que os portões de Auschwitz foram abertos pelas piadas. É preciso haver piada antissemita para existir Auschwitz. É preciso alguém ter reproduzido uma idiotice como “mulher gosta de apanhar”; “mulher é chantili, bate que cresce”; “bata na sua esposa ao chegar, não precisa explicar, ela sabe o porquê” – todas essas asneiras um dia vão penetrar no cerebelo de um desequilibrado que vai bater porque se sentiu autorizado linguisticamente por uma cultura. Isso é muito perigoso.

Por que o ódio entrou forte no debate político brasileiro?

O ódio é sempre mais fácil, porque impede que você pense. Quando lhe odeio, em primeiro lugar, digo que sou bom e você é ruim, e tudo o que tem de ruim no mundo vem de você, do seu partido, do seu grupo, do seu político. Isso é bom, porque constrói em uma pessoa ou partido, de direita ou de esquerda, uma capacidade de transferir qualquer responsabilidade, e nessa característica, o ódio é uma zona muito confortável.

E também o ódio tem o poder de união extraordinário, os cristãos usaram isso muito bem – ter alguém para odiar. Os norte-americanos construíram toda a sua identidade de vida contra, primeiro, os peles-vermelhas; depois, contra os casacos vermelhos; depois, os ingleses; os alemães, na Primeira e Segunda guerras mundiais; depois, os comunistas. Não existem os Estados Unidos da América, existem os Estados que odeiam alguém em comum.

Entrevista realizada por Renato Galeno

 

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